O PROCESSO FISIOTERAPÊUTICO NA FIBROMIALGIA: da Nociplasticidade ao Domínio do Movimento

Matheus Mendes Barbosa* Nº11, 14 de novembro de 2025 A Fibromialgia (FM) impõe um diagnóstico desafiador. Não se trata de uma simples dor; é uma Síndrome Dolorosa Crônica Generalizada cuja etiologia, fundamentalmente, revela um distúrbio central na forma como a dor é processada. Este estudo aprofundado se propõe a desvendar o manejo fisioterapêutico da FM, fazendo uma necessária e inegociável integração entre os constructos da Neurociência da Dor e da Neurociência do Movimento Humano. Detalhamos, com o rigor da prática baseada em evidências, a instrumentalização do Diagnóstico Cinético-Funcional (sob a égide da CBDF e da CIF), o qual reposiciona a deficiência primária como sendo uma Disfunção na Modulação Central da Dor. A discussão mergulhará, sem rodeios, na complexa fisiopatologia da dor nociplástica e esclarecerá os intrincados mecanismos fisiológicos pelos quais a Terapia de Exercício Progressiva e a indispensável Educação em Neurociência da Dor (PNE) atuam promovendo a remodelagem neural, culminando na essencial reorganização cortical. Esta abordagem, técnica e humanizada, é o único pilar sustentável para a reabilitação funcional e a elevação da qualidade de vida do fibromiálgico. A Fibromialgia (FM) representa, para o clínico, uma ruptura com o paradigma tradicional da dor localizada. É uma condição crônica, de manifestação sistêmica, cuja carga incapacitante no trabalho, lazer e convívio social é avassaladora. Segundo a mais recente definição da IASP, a dor da FM não pode ser outra coisa senão a Dor Nociplástica – um conceito que é, por si só, o ponto de partida para a Neurociência da Dor. Para o Fisioterapeuta, que é o especialista do movimento, a intervenção aqui é uma orquestração delicada sobre um sistema de alarme permanentemente hipersensível. É um erro crasso restringir a abordagem ao músculo; ela deve ser integralmente Biopsicossocial (BPS). O propósito deste artigo, portanto, é traçar o caminho terapêutico completo na FM, desde a sua correta classificação funcional (CBDF) até a explicação inequívoca dos mecanismos neurológicos que dão sustentação ao exercício e à educação. O diagnóstico fisioterapêutico da FM não é um ato de subordinação; é uma prerrogativa autônoma. Exige que nos afastemos da nosologia médica (lato sensu) para focarmos, rigorosamente, na identificação da deficiência cinético-funcional conforme os ditames do COFFITO e da CBDF. A FM deve ser classificada primariamente como uma Deficiência Cinético-Funcional Crônica, Multissistêmica e Generalizada, cuja origem neurofisiológica primária é, incontestavelmente, uma Disfunção na Modulação Central da Dor. O mapa funcional deve ser desenhado utilizando os domínios da CIF, o que nos permite ir além do tecido danificado: ● Funções do Corpo (b): Não apenas codificamos b2801.3 (Dor Crônica Severa), mas também funções negligenciadas como b130 (Funções de Energia e Impulso), diretamente ligadas à fadiga incapacitante. ● Atividades e Participação (d): O diagnóstico precisa traduzir a restrição funcional na vida real: d450 (Caminhar), d920 (Lazer). O diagnóstico, em última instância, é um documento das restrições funcionais impostas pela hipersensibilidade neural. Raciocínio Clínico: Modelando a Avaliação do Sistema de Alarme O diagnóstico não é um checklist protocolar. É uma investigação densa: 1. Anamnese e a Subjetividade da Dor: O clínico precisa extrair a narrativa completa do paciente. É fundamental entender a qualidade da dor (se é choque, queimação, pontada) para diferenciar a origem neural. Mas o ponto fulcral é a identificação dos amplificadores psicossociais: crenças catastróficas (“meu corpo está desmoronando”), o nível de estresse, a arquitetura do sono. O paciente fibromiálgico está com seu sistema de ameaça hiperativo. 2. Avaliação Quantitativa e o Medo: A Neurociência da Dor obriga-nos a quantificar a hipersensibilidade. O FIQ mede o impacto. Mas o mais importante: a TSK (Tampa Scale) é a nossa régua para medir a cinesiofobia – o medo do movimento – que é o maior obstáculo à reabilitação. 3. O Exame Físico à Luz da Sensibilização: Os testes de força e ADM devem ser interpretados com extremo cuidado. O limite de dor relatado pelo paciente nunca se correlaciona linearmente com o dano tecidual; ele é, de fato, o reflexo do grau de sensibilização em seu SNC. A FM é Dor Nociplástica: Compreendendo a Essência O status da FM como Dor Nociplástica é inegociável. O que estamos tratando é uma disfunção persistente na decodificação da nocicepção. ● Sensibilização Central: É o cerne da questão. Ocorre uma hiperexcitabilidade das vias de dor na medula e em áreas corticais. Isso significa que, sem qualquer lesão ativa, estímulos irrelevantes tornam-se dor (Alodinia), e a dor existente se torna desproporcional (Hiperalgesia). A Desregulação Crônica: Por que não se fala em “Cura”? A FM, enquanto síndrome crônica, não permite a “cura” no sentido de eliminação da causa estrutural, pois a patologia reside na desregulação e plasticidade maladaptativa do Sistema. “Nervoso Central (SNC)” 1. Imbalance Neurotransmissor: Existe um déficit dramático na eficácia dos sistemas inibitórios descendentes (com pouca Serotonina e Norepinefrina) e uma supremacia da excitação (com excesso de Glutamato). Esse desequilíbrio aprisiona o SNC em um estado de defesa permanente. 2. Reorganização Cortical Maladaptativa: A exposição crônica ao alarme da dor reorganiza o cérebro. Imagens funcionais demonstram uma hiperatividade das áreas de ameaça (Amígdala) e uma hipoatividade das áreas de modulação. O cérebro está, literalmente, treinado para sentir dor. Intervenções e os Mecanismos Fisiológicos do Tratamento A Fisioterapia utiliza o movimento como fármaco neurológico para forçar a plasticidade adaptativa. 1. Educação em Neurociência da Dor (PNE): ○ Mecanismo: Seu alvo é a dimensão cognitiva. Ao reexplicar a dor (como um output protetor, não como dano), a PNE neutraliza a ameaça percebida. O resultado neurofisiológico é a atenuação da atividade da Amígdala e a redução da amplificação central. 2. Terapia de Exercício Progressiva (O Pilar da PBE): A intervenção mais robusta e cientificamente validada. ○ Exposição Graduada (Graded Exposure): Estratégia mandatória. O exercício começa no nível de conforto e avança, não para atingir a força máxima, mas para desafiar o sistema nervoso e quebrar o medo do movimento (cinesiofobia). Mecanismos Fisiológicos da Neuroplasticidade: ■ Hipoalgesia Induzida por Exercício: O exercício aeróbico provoca uma “cascata” de liberação de Opioides Endógenos (endorfinas) e Endocanabinoides, elevando o limiar de dor e fornecendo analgesia sistêmica. ■ Fator Neurotrófico (BDNF) e Reorganização Cortical: O estímulo metabólico do exercício incrementa a produção de BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor). O BDNF é o principal promotor da neuroplasticidade adaptativa, sendo capaz de auxiliar na reorganização funcional do córtex, desfazendo o mapa corporal hipersensível e disfuncional. A gestão eficaz da Fibromialgia é um imperativo ético e científico. O Fisioterapeuta deve empregar o Diagnóstico Cinético-Funcional para categorizar a disfunção como um problema de Modulação Central. O tratamento só é sustentável quando ancorado na Educação em Neurociência da Dor e na Terapia de Exercício Progressiva. Essa intervenção bifocal não apenas alivia os sintomas; ela opera diretamente nos mecanismos da dor nociplástica e da sensibilização central, promovendo a neuroplasticidade adaptativa, diminuindo o output de dor e, de maneira fundamental, devolvendo o controle sobre o movimento e a qualidade de vida ao paciente, validando o papel autônomo da Fisioterapia. REFERÊNCIAS VASCONCELOS, P. C. et al. Educação em Neurociência da Dor (PNE) em Pessoas com Dores Crônicas: uma revisão sistemática. Disponível em: https://www.even3.com.br/anais/iicnf/459396-educacao-em-neurociencia-da- dor-(pne)-em-pessoas-com-dores-cronicas–uma-revisao-sistematica. Acesso em: 04 nov. 2025. VELDEN, Max Van Der. Revisitar o ensino da neurociência da dor: Adjunto ou focalizado? Disponível em: https://www.physiotutors.com/pt/re visiting-pain- neuroscience-education-adjunct-or-focus. Acesso em: 04 nov. 2025. HILTON, Sandy. Efeitos a curto e médio prazo de uma única sessão de educação em neurociência da dor sobre a dor e fatores psicológicos em doentes com dor lombar crónica. Um ensaio de clínico randomizado simples-cego. Disponível em: https://www.physio-network.com/pt/research- reviews/low-back/efeitos-a-curto-e-medio-prazo-de-uma-unica-sessao-de- educacao-em-neurociencia-da-dor-sobre-a-dor-e-fatores-psicologicos-em pacientes-com-dor-lombar-cronica-um-ensaio-clinico-randomizado-simples- cego. Acesso em: 04 nov. 2025. Sánchez-Robalino, A.; Sinchi-Sinchi, H.; Ramirez, A. Eficácia da Educação em Neurociência da Dor na Fisioterapia: Uma Revisão Sistemática e Meta- Análise. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/906063824/brainsci-15- 00658-pt-BR-1. Acesso em: 04 nov. 2025. CampCursos. Educação em Neurociência da Dor (PNE) Ir para: navegação, pesquisa. Disponível em: https://campcursos.com.br/educacao-em- neurociencia-da-dor-pneir-para-navegacao-pesquisa/. Acesso em: 04 nov. 2025. Fragelli, T. B. O. Mapeamento das estratégias pedagógicas que são utilizadas em Educação em Neurociência e a capacidade destas em proporcionar melhor compreensão, autogestão das condições patológicas e autoeficácia do paciente. Disponível em: https://www.plic.app.br/evento/cicdf/edicao/cicdf25/publicacoes/6549. Acesso em: 04 nov. 2025. *Possui graduação em Fisioterapia pela Faculdade EDUFOR (2023). Atualmente é Coordenador da Equipe de Fisioterapia – Unidade de Pronto Atendimento Paço do Lumiar (MA) e Professor Universitário na Faculdade do Baixo Parnaíba (Chapadinha) ministrando as disciplinas de Ortopedia e Cardiologia. Com vasta experiência na área de atendimento das dores crônicas de coluna. Pós Graduando em Osteopatia e Fisioterapia Traumato Ortopédica e Pós Cirúrgica.

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